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Como o Marajó virou alvo de fake news por interesses evangélicos

Fake news sobre exploração sexual no Marajó impulsionam campanhas de Pix para igrejas e institutos evangélicos; missões e influenciadores lucram com desinformação.

Por Mattias Santos ·

Nos últimos meses, o arquipélago do Marajó, no Pará, tornou-se alvo de uma onda de fake news que, em vez de gerar ajuda real, serviram para impulsionar campanhas pedindo Pix para igrejas e institutos particulares. A desinformação, espalhada por influenciadores evangélicos e páginas de fé, transformou a região em "destino" de missões evangélicas, expedições de voluntários e entregas de cestas básicas e brinquedos — tudo bancado por doações que, segundo relatos, nem sempre chegam aos moradores.

O conteúdo viral começou com vídeos e posts alegando que crianças seriam vendidas e estupradas em larga escala no Marajó, sem provas. A narrativa foi abraçada por pastores e youtubers gospel, que passaram a pedir contribuições financeiras para "resgatar" vítimas. Em uma semana, ao menos três campanhas arrecadaram mais de R$ 200 mil, segundo estimativas de monitoramento de redes sociais consultadas pelo O Buxixo Gospel.

A prefeitura de Breves, principal cidade do Marajó, emitiu nota oficial negando os boatos e afirmando que os casos de violência sexual são tratados dentro da normalidade legal. O Ministério Público do Pará também abriu investigação para apurar se há exploração financeira por trás das fake news. Até o momento, nenhuma denúncia formal de tráfico em massa foi registrada.

Missões e lucro: o outro lado da desinformação

Enquanto as autoridades tentam conter a mentira, o Marajó virou palco de verdadeiras caravanas evangélicas. Grupos de influenciadores gravaram conteúdo em comunidades ribeirinhas, distribuindo alimentos e bíblias, e pedindo Pix ao vivo. Uma líder de ministério, que não quis se identificar, disse à reportagem que "muitos estão ganhando dinheiro em cima da miséria alheia". Ela relatou que doações em dinheiro são desviadas para gastos pessoais dos organizadores.

Especialistas em comunicação gospel ouvidos pelo O Buxixo Gospel avaliam que o caso expõe a vulnerabilidade de fiéis a narrativas sensacionalistas. "A fé é instrumentalizada para gerar lucro, enquanto a verdadeira ajuda fica em segundo plano", afirma um pastor de Belém que prefere anonimato. A situação levanta debate sobre responsabilidade de líderes religiosos ao compartilhar conteúdo não verificado.

Reação da comunidade gospel e próximos passos

Nas redes, parte dos evangélicos começou a questionar as campanhas. Grupos de checagem de fatos evangélicos, como o Gospel Checagem, apontaram que as acusações de tráfico são infundadas. A Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) emitiu comunicado pedindo prudência antes de doar para causas não auditadas.

O Ministério Público Federal (MPF) no Pará anunciou que vai investigar se as arrecadações configuram estelionato. Enquanto isso, o Marajó segue recebendo visitas de missionários — e as fake news continuam gerando Pix. Para o leitor evangélico, a lição é clara: antes de contribuir, é preciso checar a fonte e o destino do dinheiro.