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Futebol brasileiro adota teologia da prosperidade: individualismo evangélico redefine clubes e torcidas

Relatório internacional aponta que avanço evangélico no Brasil não só transforma a política, mas também o futebol, com jogadores e clubes adotando discurso individualista e teologia da prosperidade.

Por Mattias Santos ·

O avanço evangélico no Brasil está redefinindo não apenas o poder político, mas também o futebol. Um relatório internacional divulgado nesta quinta-feira (9) aponta que o evangelicalismo que chega ao país é marcado por um forte individualismo, articulando a noção calvinista de esforço individual como devoção a Deus com a teologia da prosperidade neopentecostal. No futebol, isso se traduz em jogadores que priorizam o sucesso pessoal e clubes que adotam um discurso de fé como ferramenta de performance.

Segundo o documento, publicado há cinco horas por um centro de estudos latino-americanos, o evangélico contemporâneo privilegia o indivíduo em detrimento do coletivo. No contexto do futebol brasileiro, essa mentalidade tem impactado desde a postura em campo até as relações com torcidas e dirigentes. Jogadores conhecidos por sua fé evangélica, como o atacante Gabigol e o volante Casemiro, frequentemente associam seus gols e títulos a bênçãos divinas, reforçando a ideia de que o esforço individual é recompensado por Deus.

O fenômeno não se restringe aos atletas. Clubes como o Palmeiras e o Flamengo têm visto um aumento de cultos evangélicos nos vestiários e a presença de pastores no dia a dia das equipes. Em entrevistas recentes, técnicos e dirigentes têm destacado a "força espiritual" como diferencial competitivo. O relatório aponta que essa tendência reflete uma mudança mais ampla na sociedade brasileira, onde o individualismo evangélico substitui valores coletivos tradicionais.

Torcidas e ídolos: a fé como espetáculo

Nas arquibancadas, torcidas organizadas de orientação evangélica têm ganhado espaço, promovendo louvores antes dos jogos e distribuindo materiais religiosos. O relatório menciona que, em 2025, a final do Campeonato Brasileiro foi precedida por um culto ecumênico com forte participação evangélica, algo inédito. Para o sociólogo Ronaldo de Almeida, da Unicamp, ouvido pelo O Buxixo Gospel, "o futebol virou um palco para a teologia da prosperidade: o atleta como exemplo de que a fé gera sucesso material".

A individualização da fé também se reflete na relação dos jogadores com as torcidas. Diferentemente do passado, quando ídolos eram vistos como representantes do coletivo, hoje muitos atletas evangélicos se apresentam como "servos de Deus" acima do clube. Isso gera tensões, como na recente polêmica envolvendo o atacante Pedro, do Flamengo, que recusou posar com a camisa de um patrocinador de bebida alcoólica, alegando convicções religiosas.

Impacto no mercado e nas políticas dos clubes

O mercado do futebol também sente os efeitos. Agências de publicidade têm criado campanhas que associam marcas a valores evangélicos, e jogadores passaram a exigir cláusulas contratuais que respeitem sua liberdade religiosa. O relatório alerta que, se antes a fé era um elemento privado, hoje ela se tornou pública e influencia decisões de patrocínio e imagem.

Para o pastor e comentarista esportivo Ed René Kivitz, "o futebol reflete a alma do Brasil. Se a alma está se individualizando, o esporte também muda". O documento conclui que o avanço evangélico no futebol é um sintoma de uma transformação profunda na sociedade brasileira, onde o sucesso individual é visto como prova da bênção divina, e o coletivo perde espaço.