Panamá sedia congresso inédito sobre prevenção de abusos e pastoral do surdo
Evento reúne líderes evangélicos e católicos para discutir proteção infantil e inclusão de pessoas surdas na igreja; Brasil envia delegação.
Pela primeira vez, um congresso internacional reúne lideranças religiosas para debater, de forma integrada, a prevenção de abusos na igreja e a pastoral do surdo. O evento ocorre no Panamá desde esta quinta-feira (9) e segue até sábado (11), com participação de representantes de 15 países, incluindo uma delegação brasileira. A iniciativa é do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI) em parceria com a Rede de Proteção à Criança e ao Adolescente, e marca um avanço na abordagem conjunta de temas que, até então, eram tratados separadamente.
Prevenção de abusos ganha protagonismo
O congresso coloca em destaque protocolos de segurança para ambientes eclesiásticos, um tema que ganhou urgência após denúncias recentes de abusos envolvendo líderes religiosos na América Latina. Dados do Ministério dos Direitos Humanos do Brasil apontam que 70% dos casos de abuso infantil ocorrem em contextos de confiança, e líderes religiosos estão entre os agressores. Para enfrentar essa realidade, o evento alterna palestras e oficinas práticas, com foco em treinamento de voluntários e criação de canais de denúncia nas igrejas. “Não basta falar sobre o problema; precisamos de ações concretas nas igrejas locais”, afirmou o pastor Carlos Mendes, coordenador da delegação brasileira. A metodologia inclui simulações de situações de risco e orientações sobre como identificar sinais de abuso, capacitando os participantes a agir de forma preventiva.
Além disso, o congresso discute a importância de políticas institucionais que garantam a proteção de crianças e adolescentes, como a exigência de certificados de antecedentes criminais para voluntários que trabalham com menores. Representantes de igrejas evangélicas e católicas compartilham experiências de sucesso na implementação dessas medidas, criando uma rede de cooperação entre denominações. A expectativa é que, ao final do evento, os participantes assinem uma carta-compromisso para adotar tais protocolos em suas comunidades.
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Pastoral do surdo: inclusão que transforma
Outro eixo central do congresso é a pastoral do surdo, que ganha espaço pela primeira vez em um evento continental. Oficinas de Libras (Língua Brasileira de Sinais) e painéis sobre acessibilidade litúrgica mostram como as igrejas podem acolher pessoas surdas, que muitas vezes se sentem excluídas dos cultos e atividades religiosas. “A igreja ainda exclui milhões de fiéis que se comunicam por sinais. Este congresso é um marco”, destacou a intérprete gospel Daniela Souza, que participa do evento. Ela ressalta que a falta de intérpretes e materiais adaptados é uma barreira significativa para a participação plena dos surdos na vida eclesial.
A escolha do Panamá como sede não é aleatória: o país tem uma das maiores comunidades surdas da América Central, com forte atuação de igrejas inclusivas que já desenvolveram liturgias em língua de sinais. Durante o congresso, líderes dessas igrejas compartilham suas práticas, inspirando outras denominações a seguir o mesmo caminho. A programação inclui também momentos de integração entre surdos e ouvintes, promovendo a quebra de preconceitos e o fortalecimento da comunhão.
O congresso termina no sábado (11), mas os organizadores já planejam uma segunda edição para 2028, no Brasil. Para o pastor Carlos, o maior legado é a união de duas pautas urgentes: “Proteger crianças e incluir surdos não são temas separados — são faces do mesmo evangelho que acolhe a todos”. A carta-compromisso que será assinada prevê a criação de um observatório latino-americano para monitorar o progresso das políticas de prevenção e acessibilidade nas igrejas, garantindo que o debate não se encerre com o evento.
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